Resolução da roda de conversa sobre anticapitalismo

Atualizado: 24 de mar.

É impossível conceber qualquer tipo de sociedade justa e ecológica dentro dos limites capitalistas. Para tal, devemos construir alternativas radicais, devemos ser anticapitalistas!


 


Vivemos um momento crítico para toda a vida na Terra. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em seu último relatório, mostrou que essa década é crucial para o combate à crise climática. Não temos mais tempo. A cada dia que passa, mais e mais pessoas, em sua maioria no Sul Global, se tornam vítimas das consequências catastróficas do aquecimento global. Precisamos agir agora.

Em razão disso, muito se tem debatido sobre as causas da crise e sobre como vamos combatê-la. A ideia que circula nos meios de comunicação mais vistos é a de que a crise climática é resultado de "excessos do capitalismo", e que, para resolver esse problema, devemos realizar reformas no sistema a fim de garantir um "desenvolvimento sustentável". Outra ideia que faz bastante sucesso é a de que nossas ações individuais, seja por meio do "consumo consciente" ou mudanças de hábito, são capazes de subverter a lógica atual.

O que falta nessas análises é o reconhecimento de que o capitalismo, funcionando em sua normalidade, é incompatível com qualquer imperativo de sustentabilidade. É um sistema baseado na competição e na exploração das pessoas e da Terra para a obtenção de lucro. Como seu imperativo máximo é o crescimento constante e ilimitado, ele vai de encontro aos limites ecológicos do nosso planeta.

Desenvolvimento, na lógica capitalista, significa acumular mais dinheiro nas mãos de quem já é muito rico por meio da mercantilização da Natureza, e da exploração des trabalhadores. No Sul Global, significa aprofundar o extrativismo e a subordinação ao centro do capitalismo, impor o modo de vida imperial a todas as sociedades. As crises econômicas são reflexo dessa lógica. A contradição entre a produção ilimitada e a miséria crescente do povo gera crises periódicas e necessárias ao capitalismo, que se adapta a cada novo cenário, sempre preservando a exploração. Por isso, é impensável falar em "desenvolvimento sustentável" dentro desse sistema.


Queremos sustentar o que, afinal?

Além disso, como é um sistema baseado na exploração de pessoas e da terra para a produção de mercadorias, "consumo consciente" é também impensável. Toda e qualquer mercadoria produzida sob o capitalismo contém exploração, seja de pessoas, animais ou da Terra; e como o capitalismo é um sistema que gera pobreza, a maioria das pessoas não podem sequer escolher o que vão consumir (quando conseguem consumir); utilizam aquilo que lhes é acessível ou o que chega até elas.

Juntamente com o colapso ambiental, o capitalismo é um sistema de opressões. Construído sobre o sistema escravista, no período colonial, o capitalismo perpetua a opressão de raça, de gênero, de sexualidade e de todas as outras identidades que não se encaixam no homem branco, cis e hétero, símbolo do burguês. Por meio do aparato burocrático e militar do Estado, a classe dominante explora o povo e se utiliza das mídias para legitimar e normalizar a exploração.

Por que o extermínio do povo negro não nos choca tanto quanto o assassinato de uma pessoa branca? Por que os donos de megaempresas nunca são responsabilizados pelos crimes ambientais que cometem? Por que empresas do agronegócio não são responsabilizadas pelo trabalho escravo que utilizam e pelos biomas que destroem? Hoje (2022), 50% dos mais pobres da população mundial detém apenas 2% da riqueza total, enquanto os 10% mais ricos detém 75%¹

Esses não são exemplos de anomalias a serem corrigidas, é o capitalismo funcionando a todo o vapor. É impossível conceber qualquer tipo de sociedade justa e ecológica dentro dos limites capitalistas. Para tal, devemos construir alternativas radicais, devemos ser anticapitalistas!


 

A partir destas constatações, restam algumas dúvidas. Como ser anticapitalista? É possível ser anticapitalista num sistema lotado de contradições? Não seria contraditório viver no capitalismo e ser contra ele?

Como Sabrina Fernandes pontua no vídeo “Como ser anticapitalista hoje?”, não é possível ser anticapitalista sozinho. É preciso estar organizado, é preciso interferir coletivamente na sociedade. Dessa forma, o primeiro passo para ser anticapitalista é se organizar em algum movimento, coletivo ou partido, visto que mudanças de hábito, como redução do uso de plástico, apesar de desejáveis, não constituem uma ação revolucionária, pois o caráter totalizante e estrutural da crise exige que nós não nos vejamos apenas como consumidores, mas sim como cidadãos, agentes políticos capazes de transformar a realidade a partir do coletivo. Precisamos entender que, assim como qualquer pauta, a crise socioambiental que vivemos tem um caráter intrinsecamente político. É necessário reconhecer que há uma disputa de interesses em jogo: os dos bilionários, que se beneficiam com a crise, e os do povo, que sofre as consequências da destruição em curso. Não conseguiremos nada com reivindicações moralistas a não ser discursos bonitos e promessas falsas.

Por isso, precisamos de um Projeto Político, avançando na avaliação do sistema capitalista e de como derrubá-lo. Devemos agir sempre coletivamente, discutindo e avaliando nossas ações, debatendo as alternativas e as possibilidades que se colocam na realidade, sempre respeitando as capacidades e limitações des nosses militantes, entendendo que não existe uma identidade militante e que cada um contribui para a luta como pode.

Temos que analisar a conjuntura atual para pautar e disputar demandas que sejam aplicáveis na atualidade ao mesmo tempo em que falamos exaustivamente sobre a necessidade de alternativas sistêmicas, abarcando todas as suas pluralidades, para a solução total da crise. Juntamente a isso, devemos construir projetos que visem a construção do poder popular por meio de trabalho de base, construindo redes de apoio com a classe trabalhadora, no nosso caso com a juventude, para reaver a confiança das pessoas em um projeto radical e construir alternativas a partir das margens. Precisamos tornar o capitalismo obsoleto para enfim derrubá-lo.

Como somos um movimento climático de juventude, nos interessamos ainda mais intensamente em entender as relações capitalismo-ecossistema e agir para que, uma vez superado esse sistema, propormos um Projeto Político que abarque a ecologia em todas as suas dimensões, permitindo o usufruto dos recursos naturais e humanos apenas na medida em que eles conseguirem se regenerar.

Ainda, sobre as possíveis contradições de viver em um sistema que se quer derrubar, é essencial termos plena noção que a contradição central está no sistema capitalista, não nas pessoas que lutam para superá-lo. Como anticapitalistas, sabemos que essa relação de exploração não só é desnecessária como é condenável e precisa ser superada. Nosso objetivo é ultrapassar esse sistema na construção de um mundo sem exploração e opressão de qualquer tipo. Não é parando de consumir mercadorias ou nos isolando da sociedade que iremos conseguir alcançar esse objetivo central. Na verdade, nos isolarmos só beneficiaria a burguesia, classe que perpetua toda a exploração e opressão em curso. Isso porque, ao nos isolarmos, nos isentamos de se organizar com a classe trabalhadora na luta pela superação do capitalismo.

Dessa forma, ao entender que o capitalismo é incompatível com a sustentabilidade devido ao seu caráter totalizante, explorador e opressor, nós, do Jovens Pelo Clima, chegamos a conclusão de que devemos ser anticapitalistas, abarcando toda a práxis necessária para construir projetos radicais que visem um mundo socialmente igual e sustentável.

Assim, propomos, a partir dos acúmulos e discussões realizadas coletivamente, que o movimento Jovens pelo Clima:

  • Assuma publicamente sua face anticapitalista;

  • Construa projetos de propagação das ideias anticapitalistas interna e externamente;

  • Construa projetos de trabalho de base para fortalecer a classe trabalhadora, focando n a juventude;

  • Disputa projetos e demandas radicais, mas aplicáveis atualmente, nos espaços de deliberação, sejam eles institucionais ou não;


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