O crescimento das vendas em brechós durante a pandemia movimenta a eco-economia em Brasília

Acompanhado pela difusão das questões ambientais entre os jovens, os brechós conseguiram aumentar seu fluxo de vendas até mesmo no atual cenário pandêmico. Saiba os motivos, sua influência ambiental e suas expectativas.


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No último sábado (11/12), o SubDulcina - espaço cultural alternativo localizado no subsolo do Conic - acomodou a 3ª edição do Circuito Sustentável, cujo evento reuniu diversos brechós brasilienses voltados para jovens interessados na pauta do consumo de peças de segunda mão. Tal iniciativa foi apenas um pretexto para ilustrar a estabilidade desse mercado durante a pandemia do Coronavírus, uma vez que houve, para a surpresa de muitos, um crescimento das vendas em brechós. A principal razão é atribuída aos jovens, público que está cada vez mais engajado nas lutas ambientais, mas sem perder o estilo.

Segundo a fundadora do Circuito Sustentável, Ana Gilgal, 20 anos, os brechós são organizações com fim lucrativo pessoal que compõem o mercado do terceiro setor, ou seja, é uma alternativa encontrada pelos donos a fim de gerar uma renda extra para si mesmos mediante a curadoria de peças de vestuário já usadas. Diferente dos bazares, redes que priorizam a arrecadação para um fundo beneficente, os brechós são voltados para um interesse próprio.

Entretanto, com quase dois anos após o início das medidas sanitárias estabelecidas pelo Governo Federal, a pergunta a se fazer é: como esse mini setor, que prolonga o ciclo de vida dos produtos, se reposicionou em meio à crise ambiental e econômica?

Entende-se que os brechós são uma ótima oportunidade de negócio, visto que o consumo de roupas e demais artigos de uso pessoal tem se tornado, nos últimos anos, uma tendência no Brasil. Segundo uma pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), nos últimos cinco anos, foi registrado um aumento econômico de 210% no setor de varejo do consumo circular. Tal acontecimento está ligado tanto ao processo de desmistificação da moda sustentável entre classes sociais quanto ao benefício financeiro promovido aos dois lados da moeda, pois tanto o microempreendedor quanto o comprador saem ganhando: o primeiro consegue desenvolver sua marca sem muitos gastos - não produz do zero uma vestimenta -, o segundo paga por um valor abaixo do mercado convencional em um novo produto que completará seu visual.

Logística em tempos de pandemia

A social media e proprietária do Brechó Anatê, Anna Vitória, 21 anos, precisou se reinventar para conseguir tirar uma renda extra durante o período da quarentena, a alternativa foi ingressar na venda criativa do setor de roupas de segunda mão: “Quando surgiu a pandemia, eu me inspirei em outros brechós para criar o meu. Eu já comprava em alguns antes, mas acredito que muitas pessoas tiveram que se desdobrar para conseguir sobreviver a esse período, eu fui uma delas”. Hoje, a vida profissional como brechozeira é de onde Anna consegue pagar suas contas.

Embora já familiarizada com a usabilidade das plataformas digitais, a entrevistada passou a cuidar ainda mais da sua imagem e da sua lojinha para conquistar destaque no mercado. “Eu aumentei as postagens com o tempo, tentando interagir e aparecer mais nas redes até surgir a ideia de feira presencial que nos ajudou muito”. Para ela, é essencial que o feed da página do brechó no Instagram – principal meio de comunicação do pequeno negócio - esteja sempre atualizado com novas peças, engajado em criação de conteúdos (dar dicas de moda) e com uma identidade visual própria, porque esses são os fatores que atraem e influenciam o público ao ato da compra.

“O resultado não é estrondoso, mas sim expressivo e animador”, pontuou Vinícius de Freitas - responsável pela curadoria do Brechó do Bine - em uma entrevista feita após a 2ª edição do Circuito Sustentável ao comparar o rendimento de sua marca entre os anos de 2019 e 2020. Ele afirmou que, em 2021, as vendas bateram recorde desde a criação do brechó em 2017. “Incrivelmente, durante a pandemia, o consumo (de peças repassadas) aumentou. Acredito que, por causa das pessoas ficarem mais tempo na internet, a visibilidade do nosso conteúdo engajou muito, até porque o nosso brechó funciona só no Instagram e, consequentemente, as vendas dispararam”, continua.

Outro fator que contribui para a permanência no mercado é justamente a criação de feiras que reúnem várias marcas e brechozeiros, como é o caso do próprio Circuito Sustentável. No final de uma feira de brechós, por exemplo, o Brechó Anatê alegou à matéria que faz uma quantia maior em um dia de evento, resultado o qual demoraria um pouco mais na vertente do e-commerce, pois presencialmente o cliente pode provar, negociar e já levar a peça sem muitos empecilhos. Todavia, é unânime entre os donos dos brechós que são as vendas on-line a principal salvação do nicho do slow fashion - movimento oposto ao fast fashion que defende a não produção em massa de um bem - no contexto atual.

Reeducando os hábitos de consumo com um diálogo sustentável

A crise ambiental é mais um novo momento que aponta a instabilidade do sistema capitalista em nossas vidas, portanto, dar início ao processo de conscientização pessoal e em massa sobre a temática é imprescindível para a luta por uma biosfera ideal para a existência de todas as espécies de seres vivos. O evento realizado no Conic quer incentivar o maior número possível de pessoas a fazerem parte desse mercado cuja atuação fomenta a conscientização de consumo interligado à responsabilidade ambiental.


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Mas devemos prestar atenção na relação entre o consumismo e a pauta ambiental. Muitas pessoas usam o conceito de comportamento sustentável como desculpa para comprar várias peças de roupa em brechó que na realidade elas não precisavam. Tendo em vista essa dicotomia intrínseca à eco-economia, cabe sempre ligar a chavinha do bom senso no momento de aquisição de um novo produto (vestimenta, alimento, aparelhos eletrônicos etc.), pois diminuir suas práticas de consumo desnecessárias, é o que de fato proporciona uma sociedade consciente em relação à luta pela preservação e conservação dos ecossistemas do planeta Terra.

A sustentabilidade, cabe lembrar, vai além da compra em brechós. Segundo Gro Harlem Brundtland, em seu livro intitulado como Our Common Future, a forma mais adequada de participar desse ciclo sustentável é ter consciência de que “Desenvolvimento sustentável significa suprir as necessidades do presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprirem as próprias necessidades”. É por isso que o movimento Jovens Pelo Clima Brasília lista como calcular uma eficiente colaboração coletiva: exigir maior atuação do Governo Federal na fiscalização de empresas e indústrias; impedir o desmatamento ilegal feito pelo agronegócio; dar preferência a produtos orgânicos produzidos por pequenos agricultores locais; inibir o descarte de lixo eletrônico e residencial de forma errônea; e engajar mais pessoas a se adentrarem nesse ciclo. Sendo assim, para que seja estabelecido um sistema que assista a todos com total par de igualdade, é fulcral iniciar o levante político, por parte da classe proletária, que enfoque engendrar sua participação revolucionária no poder público.

Os jovens como principais impulsores do comércio

O perfil de consumidor traçado como maioria é justamente aquele que pertence à faixa etária de 15 a 25 anos, às classes A, B e C, e que se reconhece do gênero feminino. Durante o isolamento social, as pessoas passaram a refletir e reeducar suas ações e gostos para um bem maior, e como a indústria têxtil é um dos principais responsáveis pelos impactos ambientais, esse público adolescente, consciente das questões socioambientais, aderiu a novos comportamentos sustentáveis. O consumo de roupas usadas é um exemplo disso, pois ele foge do ciclo de produção em massa de novas peças e prolonga o tempo de uso das já existentes.

É o que informa o estudante Kauã Oliveira, 18 anos: “Antes eu nem comprava em brechós, mas desde o início deste ano eu virei fã de carteirinha.” Já a estudante brasiliense Lola Dal Moro, 20, sempre fez parte desse movimento de moda circular, tanto que seu consumo nesse nicho aumentou em comparação a anos anteriores à pandemia: “o que me faz integrar nesse setor é, sem dúvidas, pela valorização de vendedores locais e por ser uma ação anticapitalista e mais humanista.”

Há muitas vantagens em ser cliente desses espaços: os valores das mercadorias são muito mais em conta, o que permite o acesso de várias grupos sociais; você acaba se destacando entre seus amigos, pois ninguém mais tem um look igual ao seu; e mitiga muitos danos ao meio ambiente”, ressalta Kauã. Ambos os entrevistados compram ou já compraram em brechós pela internet, e nenhum relatou uma má experiência, uma vez que os donos dos brechós que eles frequentam nas redes sociais são bem transparentes durante todo o processo da venda de uma peça.

Expectativas para os próximos anos

Tudo indica que o nicho do pós-consumo está bastante favorável no Brasil, bem como no resto do globo. A ThredUp, plataforma norte-americana especializado no comércio de peças já usadas, aponta que o dinheiro movido pelo setor deve saltar de US$ 28 bilhões em 2019 para US$ 64 bilhões em 2028 nos Estados Unidos, equivalente a mais de R$ 361 bilhões. Já no Brasil, o cenário é tão favorável que o Sebrae prevê a expansão desse segmento tanto no parâmetro monetário entre os brechós já em funcionamento, quanto no aspecto quantitativo, com novas marcas da moda circular.

O próprio Circuito Sustentável, juntamente às marcas brasilienses que o compõem, planeja potencializar ainda mais o seu faturamento em 2022, pois cada vez mais os adolescentes estão direcionados para esse estilo de vida descolado e consciente. Inclusive, a 3ª edição da feira já está planejada para o primeiro semestre de 2022 e promete ser ainda maior.


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