Você sabe dizer o que a Amazônia, as correntes do Atlântico, a Groenlândia e a Antártida tem a ver?

Assim como nas relações ecológicas em que, dos pequenos aos grandes organismos, tudo está conectado em uma delicada teia de comunicação e interdependência, os diferentes ecossistemas terrestres influenciam-se mutuamente em uma complexa relação que talvez nem sejamos capazes de imaginar.


Sendo assim, em um contexto global em que caminhamos para um aumento de temperatura superior a 3 °C até o fim do século, e em que cientistas alertam que o aquecimento global pode desencadear mudanças abruptas e irreversíveis nos sistemas biogeológicos - os chamados “pontos de não retorno” (“tipping points”) - basta que um desses sistemas se desestabilize para desencadear “efeitos dominós” nos outros, de consequências climáticas globais. É o que indica e explica o artigo “Interacting tipping elements increase risk of climate domino effects under global warming” (“A interação de elementos de inflexão aumenta o risco de efeitos dominó climáticos sob o aquecimento global”), um estudo que explicita possíveis relações entre o derretimento do gelo na Groenlândia, as mudanças nas correntes do Atlântico, as modificações na Amazônia e o derretimento do gelo na Antártida Ocidental. Feito pelo Instituto Potsdam de Pesquisa de Impactos Climáticos da Alemanha e publicado este ano, neste estudo são simulados mais de três milhões de cenários possíveis em diferentes temperaturas, descobrindo-se assim que basta um aumento global de 2 graus em comparação com a era pré-industrial para que esses “efeitos dominós” de desestabilização comecem a ocorrer.


Nesse sentido, o estudo em questão, além de gerar hipóteses que produzem cenários qualitativos para avaliar efeitos de estabilização ou desestabilização no estado climático global de cada interações entre os chamados “tipping elements” em questão - a Amazônia, as correntes do Atlântico, a Groenlândia e a Antártida Ocidental -, ele lança uma visão geral dos processos biogeofísicos que regem a dinâmica individual de cada sistema e explica o funcionamento de suas possíveis interações, o que de maneira sintética trazemos a seguir:


Sobre a Groenlândia e seu derretimento de gelo

A Groenlândia é considerada uma “iniciadora dominante de cascatas”, uma vez que (assim como as massas de gelo em geral) é uma das primeiras a responder às variações de temperatura (em até 65% de todas as simulações de conjunto do estudo, a camada de gelo da Groenlândia desencadeou “cascatas de tombamentos”).


A tendência observada com base em evidências é que a massa de gelo da Groenlândia está, não só encolhendo a um ritmo acelerado - com derretimento de superfície e desprendimento acelerado de icebergs - como também sofrendo um processo de retroalimentação, no qual o derretimento reduz a altura da massa de gelo expondo-a ao ar mais quente em altitudes mais baixas, o que por sua vez causa maior perda de gelo e assim sucessivamente (além de que, por o gelo funcionar como um espelho devido a sua cor, com menos gelo, a terra receberia mais energia solar e isso também aqueceria o oceano e a atmosfera mais). Segundo as estimativas, para uma desintegração irreversível do gelo da Groenlândia, basta um aquecimento de entre 0,8 a 3,2 ◦C acima dos níveis de temperatura média da superfície global pré-industrial.



Sobre a Antártida Ocidental e seu derretimento de gelo

Da mesma forma que a Groenlândia, a Antártida é também considerada uma “iniciadora dominante de cascatas”. Há evidências consistentes de que parte da plataforma de gelo da Antártida Ocidental — a Geleira da Ilha Pine e a Geleira Thwaites, na região do Mar de Amundsen — podem ter passado potencialmente de um ponto de não retorno (em que uma massa de gelo, ao ser introduzida no mar, se separa da rocha e começa a flutuar no oceano). Os modelos já indicam um recuo irreversível com os níveis atuais de aquecimento do oceano.



Sobre o sistema de correntes do Atlântico

Também conhecida como corrente termohalina atlântica, a AMOC (“Atlantic Meridional Overturning Circulation”) é um sistema de correntes no Oceano Atlântico que transporta águas quentes para o norte e águas frias para o sul - a corrente que flui na superfície (de aproximadamente 1000 metros de espessura) move as águas quentes e rasas para o norte, onde se tornam águas frias e profundas que depois são deslocadas de volta para o sul. Algo que preocupa os cientistas é que as evidências sugerem que todo esse sistema de correntes atlânticas desacelerou em 15% desde meados do século 20.


A AMOC é considerada um “mediador dominante de cascatas”, uma vez que é um elemento de rede central e faz muitas conexões com os outros sistemas. De maneira geral, se a AMOC enfraquecer - como de fato está acontecendo - o Atlântico Tropical Norte ficará mais quente, o que por sua vez resultará em efeitos climáticos extremos, como:


Furacões mais fortes no norte, dado o aquecimento da água nessa região; secas mais extremas, causadas pelo movimento ascendente de ar sobre as águas mais quentes que geram um movimento compensatório descendente sobre partes da Amazônia - a chamada circulação de Hadley; interferências nas monções (mudanças sazonais que causam fortes chuvas) na Índia; secas no norte da África; aquecimento das plataformas de gelo na Antártida, ao ser transportado menos calor para o norte e deixar mais quente o Oceano Antártico etc.


Amazônia

É considerada, predominantemente, uma “seguidora de cascata”, uma vez que a Floresta Amazônica está mais suscetível à influências - principalmente das Correntes do Atlântico - do que necessariamente influencia os outros sistemas diretamente (reconhecendo, contudo, que mais pesquisas sobre devem ser feitas).


Estima-se que cerca de 18% da Floresta Amazônica já foi perdida, sendo outro fator preocupante o aumento de áreas que não foram desmatadas, mas estão degradadas por incêndios, extração de madeira… Cálculos mostram que se entre 20% e 25% da Floresta Amazônica desaparecer, a duração da estação de seca e a temperatura vão aumentar e isso pode fazer com que a floresta tropical dê origem a uma vegetação diferente, de savana (uma vez que, por a floresta gerar parte de sua própria chuva, ao ter parte sua eliminada, chove menos e sem a reciclagem de água as estações de seca passam a ser cada vez mais prolongadas).


Ainda, de acordo com o cientista brasileiro Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP e especialista em Amazônia, em grande parte do sul da Amazônia, a estação de seca é de três a quatro semanas maior em comparação com a década de 1980 e também cerca de 3 °C mais quente, além de que nessa grande área de mais de 2 milhões de km2, a floresta está perdendo sua capacidade de reciclar água e de remover o dióxido de carbono da atmosfera. A taxa de mortalidade de árvores típicas do clima úmido amazônico aumentar indica que não estamos muito longe de um tipping point.




Em suma, como no neologismo “Interser”, criado pelo mestre budista vietnamita Thich Nhat Hanh para explicar que tudo coexiste em tudo - é preciso compreender a interdependência e a correlação dos sistemas naturais, para que pensemos nos pontos de não retorno climáticos e suas possíveis interações em cascata como uma questão existencial central para o nosso futuro. É preciso agir localmente e pensar globalmente.


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Leia o artigo na íntegra:

https://esd.copernicus.org/articles/12/601/2021/esd-12-601-2021.pdf


Outra referência (publicação sobre este estudo feita na BBC em 27 de junho): https://www.bbc.com/portuguese/geral-57578583?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=29062021-ClimaInfo-Newsletter




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